Poems From The Portuguese

[Brecht’s cemetery]

Brecht’s cemetery

my childhood is a deserted animal gnawing at God’s escarpments

i hear it breathing the light still
aware of the shadow blindness that heaps over my days

i search for the one born yesterday from now
it’s a handless movement
we are separated by a body but united by a city
we are the interference of light before light
and i want to dismiss my eyes but i am the blindness

i project him against the city walls
some never came back from themselves
listen to me and bring me back

my breathing aches more than my feet

on the seas of streets risen
from the physical act of the heart having once walked the stone
all resurrected a thousand lives before
i feel my own life’s remembrance
tearing devolving retaining my own heart

life is water from stone
i drink its rain of light
i see myself brought back the boy larger than his body
a face lost in suspended movement
and all we tread drained of illusion

on a tombstone that was chewed water
the piling up of broken bodies
inside my heart’s eyes a loved one
a thousand feelings ago
and the future being bomb-like built out of imperfection

i see-him-me
in the centre of all resuscitated streets
avenues of what will be in never
and the corners of impossibility built with what i drowned in my heart
a city gave birth to a man

© Translated by Ana Hudson, 2010

cemitério de Brecht

a minha infância é um animal deserto roendo as escarpas de Deus

ouço-a respirar a luz consciente
ainda da sombra cegueira que montanha os dias

procuro aquele que nasceu ontem de agora
é um movimento sem mãos
somos separados por um corpo mas unidos por uma cidade
somos a interferência da luz antes da luz
e eu quero despedir os olhos mas a cegueira sou eu

projecto-o contra os muros da cidade
há quem nunca mais tenha voltado de si mesmo
ouve-me e regressa-me

a minha respiração dói mais que os meus pés

nos mares de ruas levantadas
no acto físico de andar na pedra o que foi o coração
mil vidas antes todas ressuscitadas
sinto a recordação da minha própria vida
a rasgar a devolver a reter o próprio coração

a vida é uma água de pedra
bebo-lhe a chuva de luz
vejo-me devolvido o rapaz maior que o seu corpo
um rosto perdido entre movimentos suspensos
e todas as coisas que pisamos esgotados de ilusões

numa lápide que foi água triturada
a sobreposição de corpos quebrados
no coração dos olhos um ser que se amou
há milhares de sentimentos atrás
e o futuro a construir-se bombardeadamente do imperfeito

vejo-o-me
no centro de todas as ruas ressuscitadas
avenidas do que há de ser em jamais
e esquinas do impossível erguidas com o que afoguei no coração
uma cidade nasceu um homem

in material angústia, 2010

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