Poems From The Portuguese

Floating body

Floating body

I respond to the winds
I stay still
let those who have no memory
be torn under the violent sun.
The body shall not resurface.
Just as it was
it disintegrated in slow fright
in the currents
it will be now unrecognisable.

There are some who can’t remember
that the floating body has no memory.

The frightened ones are those
who, in turn, are present
at the recognising
of another body
besides theirs,
they can’t disentangle
thought from memory
but only thought
from its repetition.

They get scared and they shoot to kill
I, at a gallop
shoot back
I stay still.

I think of this
I dive into this.
And yes, the body
floats
and gallops.
Extraordinary circumstances
require extraordinary answers
I shoot back
I stay still.

© Translated by Ana Hudson, 2010

Corpo à tona

Eu respondo à ventania
fico imóvel
rasguem-se ao sol violento
os que nem memória têm.
Não há-de vir à tona, o corpo.
Assim tal qual
desfez-se no susto lento
ao correr das águas
há-de ser agora irreconhecível.

Há quem já não se lembre
o corpo à tona já não memória tem.

Assustam-se os que
à vez presentes
no reconhecimento
sim, de outro corpo
além do seu,
não destrinçam
da lembrança o pensamento
só do pensamento
a sua repetição.

Assustam-se e disparam a matar.
Eu, a galope
respondo ao tiroteio
fico imóvel.

Penso nisso
mergulho nisso.
E o corpo, sim
à tona
e a galope.
Circunstâncias extraordinárias
requerem respostas extraordinárias
respondo ao tiroteio
fico imóvel.

in O sangue por um fio, 2009

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