Poems From The Portuguese

XXVII

XXVII

I no longer believe, but still think about the sacred,
as if belief had been transfigured into thought,

things of the mind, the only way to have faith.
The blues go out the window, a running tap

ruins us all, we who dreamed
of nature.

Dirty, dirty old town, and dirty these lives
whose voices I don’t even recognise.

All may resemble the hygiene of beginnings
or origins, and there will be someone who will chase the ghost

of inception, the most ancient. Poetry deals in murkiness,
a vast shadow of the invisible design

hanging over peoples’ heads who wait for the end
only to start again as if the end had evaded

movement and repetition.

© Translated by Ana Hudson, 2010

XXVII

Eu já não acredito, mas penso ainda no sagrado,
como se a crença se transfigurasse em pensamento,

coisa mental, o único modo de crer.
Os blues saem pela janela, uma torneira aberta

arruína-nos, a todos nós, que sonhámos
com a natureza.

Suja, suja, é a cidade, e sujas estas vidas
de que nem sequer as vozes reconheço.

Tudo poderá assemelhar-se à higiene do começo
ou da origem, e há quem persiga o fantasma

do início, o mais antigo. A poesia é coisa suja,
ampla sombra do invisível plano

sobre cabeças que aguardam o fim
e começam outra vez como se o fim se furtasse

ao movimento e à repetição.

in Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro, 2010

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